Livro de uma sogra – Aluísio de azevedo

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Livro de uma Sogra (Aluísio de Azevedo)

 • O livro Livro de uma Sogra começa começa com um relato de um personagem masculino (em 1ª pessoa e qual nome está em oculto) voltando da Europa e se encontrando com o seu melhor amigo de infância, o Leandro de Oviedo. A última lembrança que tivera dele era que seu amigo vivia um casamento em “verdadeiro inferno” pois a sogra do amigo invadia por completo a vida do casal. Acontece que quando reencontrou o amigo ele se surpreendeu com a nova visão que o amigo tinha em relação à sua sogra, esta que por certo já teria morrido. O amigo Leandro que antes a detestava, passou a elogiar a sogra e a respeitá-la como uma santa.

• Querendo saber o motivo, seu amigo Leandro, passou-lhe um manuscrito que sua sogra tinha escrevido e deixado guardado para que um dia pudessem ler. E o amigo começou a lê-lo.

• Resumindo o manuscrito, a sogra se casara com o Dr. Virgílio Xavier da Câmara, e pela experiência de seu casamento ela criara uma filosofia de vida a respeito da felicidade e do amor. Tiveram dois filhos: Palmira e Gastãozinho que morrera em curtos anos. Depois que seu esposo morreu, a sogra resolveu se dedicar tão somente a felicidade da sua filha Palmira, e para isto, usando de toda a sua filosofia de vida “fez-se como uma ditadora” na vida da filha e do seu marido, este, Leandro de Oviedo. (o citado acima).

• E assim falava o manuscrito da sogra: “O casamento desvirtua o espírito do amor, tão puro e tão elevado… O matrimônio carnal é incompatível com a sagrada amizade, com a verdadeira dedicação, porque vive dos sentidos e não do sentimento… O grande erro do casamento vulgar o que o torna insuportável, é pretender aliar o instinto da procriação com o sentimento do amor ou da amizade, que nada tem a ver com ele e até o repele”.

• Para a sogra duas pessoas de sexo diferente podem então, sem incompatibilidade, viver eternamente juntas… “Decerto, desde que se amem castamente como nós dois nos amamos, (Aí ela se referia ao amor amigo que sentia pelo seu verdadeiro amor, o Dr. César Veloso, até o momento seu amigo) e não tenham entre si a menor aproximação carnal. O que incompatibiliza moralmente os cônjuges é o amor físico. Se dois amigos do sexo diferente pudessem, na plenitude da mocidade, realizar um consórcio naquelas condições, e vivessem juntos sem a menor preocupação dos sentidos, seriam eternamente felizes e cada vez mais se amariam, porque para eles a convivência constante, ao contrário do que sucede aos que se unem pelo sexo, longe de enfraquecer-lhes o amor, havia de ir cristalizando-o lentamente, até fazê-lo atingir o supremo estado de pureza, inquebrantável e límpido como um diamante. Seria esse o único casamento eterno”!

• “O instinto materialíssimo da procriação nada tem que ver com o amor, isto é, com o verdadeiro sentimento de humanidade elevado ao seu mais alto grau de comoção. A fêmea é para o macho — produzem; a mulher é para o homem — amam-se. Entre os que se ajuntam instintivamente, não pode existir o amor, só há sensualidade”!

• Palmira, a filha da sogra, rica, se apaixonara por José Leandro de Oviedo, um rapaz pobre, empregado público. A sogra procurava um genro que pudesse ser o mais perfeito possível para o casamento dar certo e encontrou em Leandro o rapaz que mais se aproximasse disso. Mas ainda assim, ela manteria total vigilância em todo o tempo… E para isso até pedira a ajuda do seu amigo César: “Os seus serviços, meu amigo, disse-lhe eu, vão ser desde logo necessários para uma prévia inspeção. Inspeção rigorosa, na pessoa de quem se propuser para meu genro. Só consentirei que se case com Palmira um rapaz perfeito, em plena normalidade de saúde”.

• A sogra continuava firme com suas convicções e sua filosofia: “Um casal vulgar só pode ser feliz enquanto dura de parte a parte a ilusão do amor sensual que o determinou; uma vez esgotada a provisão de amor ou de ilusão, o casal deixa de ter razão de ser e deve ser dissolvido. Logo, a mulher, para ser fisiologicamente feliz, precisa substituir o seu amante por um novo, desde que ele não continue a exercer sobre ela o fascinante prestígio que a cativou. Ora, sendo de todo impossível substituir assim um esposo, o que restava a fazer? — Substituir a ilusão. O ator seria sempre o mesmo, os papéis, representados por ele aos olhos da consorte, é que teriam de variar e seriam sempre novos”.

• E a sogra insistia em seus argumentos: “Essa ilusão servirá para a garantia do primeiro filho. Está muito bem! Mas ainda os dois falam entre si e com os amigos em “lua-de-mel”, e já cada um por sua conta começa a descobrir no companheiro imprevistas particularidades, reais e prosaicas, que vão surdamente desdourando o insubstituível prestígio poético que exerciam um sobre o outro”.

• Para a sogra, o casamento faz com que cada um veja as diferenças entre si e isso faz destruir toda a magia do namoro… “Mas onde está, que fim levou, aquele airoso dançador de valsas, aquele gentil mancebo, que não seria capaz de exibir-se a ninguém, e muito menos à noiva, senão depois de caprichosamente apurado na roupa, no cabelo, nos dentes e nas unhas? aquele irresistível galanteador, que dizia coisas tão finas e que fazia versos tão lindos, e trescalava a sândalo ou cananga-do-japão? E onde está aquela mocinha vaporosa, que era toda graça, delicadeza e perfumes, e que mostrava uma cintura e uns pezinhos tão provocadores, e uma cabeça tão primorosamente penteada, e um colo, e uns olhos, e uma boca, tão misteriosos e divinos”?…

• Realmente, a sogra impunha tantas regras que para ficar com sua filha, o rapaz teria até que assinar um acordo: “Pois então o senhor assinará uma declaração, formal e precisa, dirigida à polícia, dizendo que a ninguém devem atribuir a autoria da sua morte, porque foi o senhor mesmo quem pôs termo aos seus dias. E empenhará comigo a sua palavra de honra em como a ninguém revelará a existência desse documento; documento que será reformado de três em. três meses”. Com isso, que ele nem pensasse em não seguir as regras, pois ela o eliminaria. Uma das regras é que ele morasse sozinho e sua filha ficasse morando com ela. “Com orgulho e com prazer declaro que a vida conjugal de minha filha ia por adiante, desenrolando-se feliz. Meu genro continuava a morar sozinho em Botafogo e nós duas no bairro de Laranjeiras”.

• Um dia seu genro não suportando tanta pressão reclamou: “Quero dizer que a senhora minha sogra abusa do pacto feito entre nós quando me casei! E abusa da sua posição de minha benfeitora, contrariando-me e torturando-me só pelo gostinho de ser sogra”!

• Sua filha Palmira também revidou pois a sogra quase nem permitia que ela fosse para a casa de Leandro: “É, mamãe! A Bíblia manda!… confirmou minha filha com uma carinha brejeira. Lembre-se de que Deus Nosso Senhor disse a Eva para obedecer a Adão e acompanhá-lo por todo lugar onde ele fosse”!

• E a sogra imediatamente rebatia: “Eva não tinha mãe, a seu lado, que, se a tivesse, não daria ouvidos à serpente”…

• E Leandro ficara enlouqueçido: “Oh! exclamou Leandro agastado. Dir-se-ia que a senhora me chamou “Serpente!” Serpente! Tem graça!… Eu é que sou a serpente!… Pois minha senhora, se aqui temos pomo de discórdia, não sou eu com certeza que o promovo. E, quanto ao fato de Eva não ter mãe, digo-lhe então, francamente, que Adão, esse é que era deveras um felizardo, porque não tinha sogra! Ouviu, minha senhora? — Não tinha sogra”!

• Passado pouco tempo, Palmira engravidou e isso foi mais um motivo de discórdia na família:“Mas, dentro em pouco, uma grande ocorrência vinha alterar nossa vida, tão custosamente bem feita, e revolucionar-nos a casa, abrindo entre minha filha e meu genro uma cena cruel, cena de lágrimas e soluços, agora verdadeiros, de verdadeira dor. Manifestaram-se em Palmira os sintomas de gravidez. Isto, que em outra família seria motivos de regozijo, lá conosco foi razão de sérias lutas por mim travadas contra meu genro e minha filha”.

• E a sogra, então, fez com que o genro fosse viajar sozinho para a Europa durante esse período de gravidez da sua filha: “Declarei logo que ela, desde esse dia, deixava de coabitar com o marido, e que este seguiria no primeiro paquete a sair para a Europa, ou partiríamos nós duas”.Meu genro, que acabava de almoçar conosco, enterrou o chapéu na cabeça e desgalgou de casa como um raio, exclamando que fugia — para não fazer ali mesmo uma loucura”.

• Palmira também não se conformava: “Nunca pensei, mamãe, disse-me ela, que a senhora levasse tão longa a sua mania de separar-me de meu marido! Nem parece que vosmecê é mãe e já esteve grávida, porque então devia saber que uma mulher, quando está neste estado e tem de dar à luz, o primeiro filho principalmente, quem mais deseja perto de si é o esposo”!…

• Mas a sogra não ficava sem argumento: “É justamente porque já estive grávida; é porque te dei à luz; é porque sou mãe; e é porque também fiz grande questão em que teu pai acompanhasse todo o período da minha gravidez, e assistisse, do começo ao fim, o parto donde nasceste — que agora não consinto, por forma nenhuma, suceda contigo a mesma coisa! Sei o que faço, minha filha! E, desde já, previne teu marido de que, se se opuser às minhas determinações, não conte ele comigo para mais nada, a não ser perseguição e vingança”!

• Mas na verdade a sogra achava que tudo o que ela fazia era para que o casal fosse feliz e que evitassem as duras realidades do casamento. E ela ficava sentida com o genro: “Leandro começou daí por diante a evitar a minha presença; a falar-me secamente e o menos que podia; começou a não me tratar senão por “Minha sogra”, dando a esta palavra uma expressão tão agressiva e tão dura, que por fim já me doía e magoava bem cruelmente”.

• Para a sogra havia uma lei da incompatibilidade do amor físico com o amor moral. Mas ninguém poderia entender o que se passava no seu íntimo: “Ah! se ele soubesse todavia quanto o meu coração é bom”!

• E falava ainda com seu genro: “Prefigure-se tornando à casa depois de alguns meses de ausência e vindo encontrar o seu filhinho nos braços da nossa Palmira! Hein? não lhe parece que o prazer da volta compensa um pouco os sacrifícios da ausência”?

• E explicava o motivo dessa decisão à sua filha, sempre na intenção de poder melhorar mais o casamento e não deixá-lo vir a ruir por falta de precaução: “Ficando aqui, disse-lhe eu, vendo-te ele todos os dias, sem aliás poder aproximar-se de ti para o matrimônio, haveria de trair-te, fatalmente, durante os resguardos da prenhez e do parto. A tua ausência será pois a garantia do seu amor e da sua fidelidade”.

• E acabou fazendo com que Palmira entendesse o amor que sua mãe tinha por ela e que ao invés de separar o casal, estaria ajudando a construir ainda mais o amor: “Não! não! não, minha filha! teu esposo não te verá de ventre crescido, não te sentirá mau hálito, não ouvirá teus gemidos e gritos de parturiente, nem assistirá a sair-te das entranhas, entre as viscosas esponjosidades da placenta e a nauseante fedentina dos humores puerperais, um ensangüentado feto, uma posta vermelha de lodo vivo! Teu esposo, não te verá amolentada, entre mornos travesseiros, impregnada de cheiro de alfazema, parida! Não! não há de ver! Não quero”!

• Leandro, na Europa, escreveu uma carta: “Chegou a primeira carta de Leandro. Não era uma carta de marido, era uma longa, sentida e despejada confidência de amante infeliz. E não dizia nunca “meu filho” ou “nosso filho”, dizia “essa criança”. Isto perturbou-me um pouco. Teria eu, quem sabe? preparado com aquela separação uma desgraça terrível, prejudicando meu neto no seu direito de filho ao amor de seu pai”?…

• Mas a sogra foi consultar seu amigo César que disse nada haver de errado em sua conduta.

• Então nasceu o filho de Palmira. E a sogra se sentia feliz: “Não posso afiançar que sofresse eu as dores puerperais, mas sei que sofri muito e que não abandonei minha filha um só instante, até receber nos meus braços um belo menino, perfeito, forte, com o crânio coberto já de cabelo preto”.

• E a sogra via que seus esforços alcançavam as suas perspectivas: “A liberdade moral e física de cada um era completa, sem despertar nos outros o vislumbre de uma ofensiva suspeita. Leandro entrava e saía de nossa casa livremente; ora dormia, ora não dormia perto da mulher, e deixava de aparecer-lhe nos dias que lhe convinha, sem que isso nela despertasse ciúmes ou enfados de despeito”.

• Nesse tempo, a sogra casara-se com seu amado amigo César, impondo-lhe também regras como a do não amor carnal, porém ficava feliz pois sua filosofia de pensar em muitas coisas se refletia na vida da sua filha e do genro: “A minha aliança com César era a de dois velhos irmãos amoráveis; e o exemplo do nosso mútuo respeito, da inalterável delicadeza de palavras e maneiras que mantínhamos um pelo outro, e principalmente a ação constante daquela nossa profunda amizade, casta, sagrada e puramente espiritual, não tardaram a dar de si os frutos que eu pressupunha, refletindo-se diretamente no ânimo de minha filha e de meu genro”.

“Sei que Palmira é feliz e sei que ela me ama; sei que meu genro me fará justiça e me amará um dia tanto quanto minha filha; sei que morrerei abençoada por eles”.

• Depois disso a sogra ficou doente e já não escrevia seus manuscritos com a mesma firmeza de antes. Mas, ainda assim, chamou sua filha e seu genro e lhes abriu o coração: “A vida é o amor, e o amor não é só a procriação. Vá cada um de vocês dois, meus filhos, buscar o esposo da sua alma, fora e bem longe do leito matrimonial, com os olhos bem limpos de luxúria, com a boca despreocupada de beijos terrenos, com o sangue tranqüilo e o corpo deslodado das lubrificações carnais”! Minha filha — toma um amante — para teu espírito! Meu filho — elege uma amiga — para o teu coração de homem!

• Enfim, a sogra conseguiu ver suas realizações através das atitudes e aprendizagens de seu genro e sua filha. O amor continuaria vivo, enquanto cada um soubesse lidar com a forma de viver a dois. Ela revelava para si mesma: “Mas é preciso arrastar-me até ao fim das minhas revelações. Vamos: Palmira está pejada (grávida) de novo; o marido, sem que ninguém lhe falasse nisso, declarou já que iria aos Estados Unidos durante o resguardo puerperal”.

• Assim, o amigo de Leandro terminou de ler o manuscrito e quis saber sobre o final da vida da sogra. E Leandro finalizou: “D. Olímpia, depois que interrompeu com um gemido aquela sua página interminada, nunca mais levantou a cabeça dos travesseiros, vindo a falecer da moléstia que a prostrava”. Mas antes disso, tomando as mãos, de Leandro e Palmira, lhes disse: “Logo que eu feche os olhos, disse-lhes compassadamente, abram aquela gaveta da minha secretária, cuja chave está debaixo deste travesseiro, e tirem de lá o manuscrito que fui escrevendo depois que Palmira se casou. Encontrarão aí a justificação plena de todos os meus atos e de todas as minhas palavras. Foi por amor de ti, minha filha, que concebi aquelas idéias, e foi para ti, meu genro, que as escrevi. Leiam-no ambos com atenção e procurem seguir à risca os preceitos que lá se acham estabelecidos”.

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