José Alencar: O Demônios familiar

José alencar o demonio da familia Livros grátis

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Peça em quatro atos, a ação transcorre no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. A trama gira em torno da família da viúva D. Maria. Seu filho mais velho, Eduardo, médico recém-formado, assume a posição de líder familiar, auxiliando na condução dos destinos da irmã Carlotinha – moça casadoura que mantém um discreto namoro com Alfredo, amigo do irmão – e do caçula Jorge. Eduardo tem um escravo particular, o moleque Pedro, pouco interessado no trabalho doméstico e que não perdia nenhuma oportunidade de passear pela cidade que se urbanizava. O grande amor de Eduardo é Henriqueta, amiga de Carlotinha, que também ama o rapaz. No entanto, a união é impedida pelo projeto de casamento da moça com Azevedo, moço rico recém-chegado de Paris, ao qual ela se submetia, para auxiliar seu pai, Vasconcelos, a saldar algumas dívidas.

Pedro, menino escravo da família de Eduardo, assume um papel essencial no enredo em função de suas intromissões na vida amorosa dos amos. Ao mesmo tempo em que luta para promover a união entre Carlotinha e Alfredo, usa artifícios para separar Henriqueta e Eduardo, aproximando-o de uma viúva rica interessada nele.

Quando Eduardo descobre tudo, ameaça vender Pedro, mas o menino implora para ficar e se compromete a resolver tudo. Começa, então, a desenvolver ações no sentido contrário, inventando coisas a respeito de Henriqueta para fazer Azevedo desistir do casamento. Enquanto isso, Eduardo também se movimenta no sentido de romper a obrigação do casamento da amada com Azevedo. Para tanto, salda por conta própria as dívidas de Vasconcelos.

Procurando agora deixar Henriqueta livre para seu amo, Pedro busca separá-la de Azevedo. Para tanto, tenta aproximar este de Carlotinha, provocando um mal-entendido entre esta e Alfredo. Mais uma vez, Eduardo descobre todas as ações do moleque e esclarece tudo aos familiares e aos envolvidos. Declara seu amor a Henriqueta, ao mesmo tempo em que Azevedo se afasta. Alfredo e Carlotinha finalmente tornam público seu amor.

Para o moleque Pedro, responsável por todos os desencontros da peça, sobra o castigo final: Eduardo lhe entrega a sua carta de alforria, o que significa deixá-lo, dali por diante, por sua própria conta e sem a proteção da família que o acolhia.

CONTEXTO

Sobre o autor
José de Alencar foi o principal escritor do nosso Romantismo. Teve uma longa carreira dedicada ao teatro, visto por ele como um importante instrumento de pedagogia social. Embora o principal tema de suas peças fosse a liberdade, o autor não se mostrou tão complacente quando o assunto era a abolição. Escravocrata convicto, fez de muitas de suas obras um veículo de propaganda de suas ideias.

Importância do livro
A peça O Demônio Familiar expõe alguns dos termos em que se dava o debate em torno do tema da escravidão em meados do século XIX no Brasil. A par disso, mostra a exploração de recursos teatrais por um escritor especialista no assunto, e também a exploração de alguns clichês românticos. A peça nos transmite ainda um retrato da sociedade da época.

Período histórico
Quando da estreia de O Demônio Familiar, a sociedade brasileira vivia um período de discussão em torno da escravidão. A propaganda abolicionista crescia, conquistando adeptos entre as classes médias, principalmente os estudantes. Nesse debate, as propostas para o fim da escravidão era muitas: algumas propunham o fim imediato, enquanto outras defendiam sua eliminação gradativa.

ANÁLISE

A peça de José de Alencar reúne alguns dos ingredientes românticos mais convencionais. Todo o enredo é montado sobre tensões, maledicências, fofocas, mal-entendidos, que lhe dão o ritmo rocambolesco e complicado das narrativas folhetinescas do Romantismo. Estão presentes, ainda, os inescapáveis obstáculos para a realização amorosa do par central, como o projetado casamento da heroína com Azevedo e as atitudes de Pedro, que fazem com que o herói não se sinta amado por Henriqueta.

OBSERVAÇÃO

  • Além da presença dos recursos folhetinescos – muitos dos quais tiveram sua origem exatamente no teatro –, como as revelações inesperadas, o enredo complicado, os diálogos vivos, a peça apresenta uma interessante associação entre personalidade e expressão linguística. Assim, temos o moralismo retórico de Eduardo, o coloquialismo de Pedro, a hipocrisia de Azevedo e a passionalidade de Alfredo.

Mas Alencar conduz as confusões da narrativa até o nível das contradições, que fazem com que a peça atinja um nível superior, ao expor ao espectador diferentes perspectivas a respeito dos conceitos em jogo. Assim, o amor romântico aparece em duas formas distintas: de um lado, o amor contido e conformado de Henriqueta, que se submete às vontades do destino; de outro, o amor decidido e ativo de Carlotinha, que luta por seu amor, não se rendendo às circunstâncias que conduziam à inevitável separação. A peça vai ainda além: há, de um lado, o amor ornamental defendido por Azevedo; de outro, o amor que é pura sinceridade proposto por Alfredo. Os dois rapazes personificam ainda duas posições contrárias a respeito da arte brasileira: o afrancesado Azevedo vê nela apenas imitação de modelos europeus, enquanto Alfredo – nesse sentido, porta-voz do autor – destaca seus traços de originalidade e nacionalismo.

A peça consegue ainda registrar os novos costumes de uma sociedade que se urbaniza com rapidez. A novidade capitalista atinge as relações sociais, colocando em foco a chamada question d’argent (problemas financeiros), um dos temas mais frequentes do nascente Realismo francês. Ressalve-se que essa questão é focalizada de uma perspectiva romântica, na medida em que desvia os homens de sentimentos verdadeiros. Além disso, há uma cena em que se relata o interesse que as vitrines coloridas despertam em Pedro – sugestão de que aqueles novos hábitos teriam contribuição decisiva nos desvios morais do menino.

A moral da peça é justamente esta: os efeitos do progresso sobre as relações sociais, principalmente para quem – como Pedro – não tem consciência plenamente formada pela educação. Esse argumento caminha no sentido da defesa da escravidão, como forma de tutela sobre o negro que, de outra maneira, estaria submetido aos desvios morais fornecidos pela liberdade plena. Na transmissão dessa moralidade tão peculiar, destaca-se a imagem do herói, Eduardo, moço equilibrado e honrado, cuja nobreza de caráter contrasta com os maus princípios defendidos por Azevedo, com manias europeizadas.

No plano da linguagem, é louvável o esforço de Alencar no sentido de mostrar as potencialidades da língua brasileira, que serve tanto ao coloquialismo desregrado de Pedro quanto à retórica mais educada de Eduardo.

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